Também escrevo no conto gótico e no recanto das letras, meus textos estão licenciados sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Uso comercial e obras derivadas precisam de autorização do autor. creativecommons.org.br Grato pela visita, boa leitura e inspiração para boas críticas.
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
Solitude
Lembro que mulheres eram algo muito bom, o prazer me fazia esquecer tudo, e quando acabava só pensava naquele prazer, mas hoje, seria diferente minha vida, ou apenas diferente o prazer que busco? Não sei, ainda estou perdido, ainda poderá trazer alegria uma qualquer? Era tão bom viver apenas a parte boa da vida, sem consequencias, sem mais problemas.
E você, antes poderia tê-la, agora te nego ainda te desejando, a quem penso enganar, evito seu gosto doce para senti um pouco o amargo sozinho, para apreciar o silêncio dos meus pensamentos egoístas, onde não há espaço para você, mas quem engano, se ainda a quero, tentar esquecer não é suficiente, posso até conseguir pensar diferente e assumir uma mentira para evita-la, mas quando eu lembrar? E se você não estiver viva, ou aqui, ou diferente demais para ainda ser você, como era bom viver sem medo, simplesmente agir, ainda queria ser assim, poderia viver uma vida mais concreta, palavras não me satisfazem, e você agora também conseguirá, as mentiras que criei são como espinhos que imagino haver no teu corpo, você comigo só ia me ferir, sofreria mais assim, porque coloquei minas entre nós, talvez as tenha colocado ao meu redor, e escolhido viver isolado, a quem estou enganando?
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
Prefácio – O Retrato De Dorian Gray (Oscar Wilde)
O objectivo da arte é revelar a arte e ocultar o artista.
O crítico é aquele que sabe traduzir de outro modo para um novo material a sua impressão de coisas belas.
A mais elevada, tal como a mais rasteira, forma de crítica é um modo de autobiografia.
Os que encontram significações torpes nas coisas belas são corruptos sem sedução, o que é um defeito.
Os que encontram significações belas nas coisas belas são os ocultos: para esses há esperança.
Eleitos são aqueles para quem as coisas belas apenas significam Beleza.
Um livro moral ou imoral é coisa que não existe. Os livros são bem escritos, ou mal escritos. E é tudo.
A aversão do século XIX pelo Realismo é a fúria de Caliban ao ver a sua cara no espelho.
A vida moral do homem faz parte dos temas tratados pelo artista, mas a moralidade da arte consiste no uso perfeito de um meio imperfeito. Nenhum artista quer demonstrar coisa alguma. Até as verdades podem ser demonstradas.
Nenhum artista tem simpatias éticas. Uma simpatia ética num artista é um maneirismo de estilo imperdoável.
O artista nunca é mórbido. O artista pode exprimir tudo.
O pensamento e a linguagem são para o artista instrumentos de arte.
O vício e a virtude são para o artista matérias de arte.
Sob o ponto de vista da forma, a arte do músico é o modelo de todas as artes. Sob o ponto de vista do sentimento, é a profissão de actor o modelo.
Toda a arte é, ao mesmo tempo, superfície e símbolo. Os que penetram para além da superfície, fazem-no a expensas suas. Os que lêem o símbolo, fazem-no a expensas suas.
O que a arte realmente espelha é o espectador, não a vida.
A diversidade de opiniões sobre uma obra de arte revela que a obra é nova, complexa e vital.
Quando os críticos divergem, o artista está em consonância consigo mesmo.
Podemos perdoar a um homem que faça alguma coisa útil, conquanto que não a admire. A única justificação para uma coisa inútil é que ela seja profundamente admirada.
Toda a arte é completamente inútil.
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
czfkguqkm
Mas, com você não é diferente, dentro de você sinto algo maior do que as explicações, parece que não existimos mais, apenas o ato, que segundos após cessa, e você voltar a ser aquela de sempre, não consigo explicar, às vezes as coisas começam a existir de forma diferente, e não consigo controlar isto.
Mas, não sei se quero tudo novamente, poderia ter muito prazer, mas não sinto vontade de sequer me levantar, e lembrar como tudo irá voltar a ser pobre depois de tudo, queria conseguir esse prazer por um longo tempo, mas não viveria, então se fosse possível tudo aos poucos, sentir você as poucos e sempre, mas você esta tão longe de mim que já não sei se existe.
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Prometheus
Mit Wolkendunst,
Und übe, dem Knaben gleich,
Der Disteln köpft,
An Eichen dich und Bergeshöhn;
Mußt mir meine Erde
Doch lassen stehn
Und meine Hütte, die du nicht gebaut,
Und meinen Herd,
Um dessen Glut
Du mich beneidest.
Ich kenne nichts Ärmeres
Unter der Sonn als euch, Götter!
Ihr nähret kümmerlich
Von Opfersteuern
Und Gebetshauch
Eure Majestät
Und darbtet, wären
Nicht Kinder und Bettler
Hoffnungsvolle Toren.
Da ich ein Kind war,
Nicht wußte, wo aus noch ein,
Kehrt ich mein verirrtes Auge
Zur Sonne, als wenn drüber wär
Ein Ohr, zu hören meine Klage,
Ein Herz wie meins,
Sich des Bedrängten zu erbarmen.
Wer half mir
Wider der Titanen Übermut?
Wer rettete vom Tode mich,
Von Sklaverei?
Hast du nicht alles selbst vollendet,
Heilig glühend Herz?
Und glühtest jung und gut,
Betrogen, Rettungsdank
Dem Schlafenden da droben?
Ich dich ehren? Wofür?
Hast du die Schmerzen gelindert
Je des Beladenen?
Hast du die Tränen gestillet
Je des Geängsteten?
Hat nicht mich zum Manne geschmiedet
Die allmächtige Zeit
Und das ewige Schicksal,
Meine Herrn und deine?
Wähntest du etwa,
Ich sollte das Leben hassen,
In Wüsten fliehen,
Weil nicht
alle Blütenträume reiften?
Hier sitz ich, forme Menschen
Nach meinem Bilde,
Ein Geschlecht, das mir gleich sei,
Zu leiden, zu weinen,
Zu genießen und zu freuen sich,
Und dein nicht zu achten,
Wie ich!
Prometheus
Encobre o teu céu, Zeus,
Com vapores de nuvens,
E, qual menino que decepa
A flor dos cardos,
Exercita-se em carvalhos e cristas de montes;
Mas a minha Terra
Hás-de me deixar,
E a minha cabana, que não construíste
E o meu lar,
cujo braseiro
Me invejas.
Nada mais pobre conheço
Sob o sol do que vòs, o Deuses!
pobremente nutris
De tributos de sacrifícios
E hálitos de preces
A vossa majestade,
E morrerías de fome, se não fossem
Crianças e mendigos
Loucos cheios de esperança.
Quando menino não sabia
Para onde havia de virar-me,
Voltava os olhos desgarrados
Para o Sol, como se lá houvesse
Ouvido para o meu queixume,
Coração como o meu
Que se compadecesse de minha angústia.
Quem me ajudou
Contra a insolência dos Titãs?
Quem me livrou da morte
Da escravidão?
Pois não foste tu que tudo acabaste,
Meu coração em fogo sagrado?
E jovem e bom, enganado
Ardias ao Deus que lá no céu dormia
Tuas graças de salvação?
Eu venerar você? E por quê?
Suavizaste tu jamais as dores
do oprimido?
Enxugaste jamais as lágrimas
do angustiado?
Pois não me forjaram Homem
O tempo todo-poderoso
E o Destino eterno,
Meus senhores e teus?
Pensavas tu talvez
que eu havia de odiar a vida
E fugir para os desertos,
Lá porque nem todos
Os sonhos em flor frutificarm?
Pois aqui estou! Formosos homens
À minha imagem,
Uma estirpe que a mim se assemelhe
Para sofrer, para chorar,
Para gozar e se alegrar,
E para não te respeitar,
Como eu!
JOHANN WOLFGANG Von GOËTHE
(1749-1832)
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Venha para não ir
O amarelo acinzentado da noite intercala o amarelo que cega, não sei mais, mas preciso encontrar um lugar dentro deste monismo dual, e agora só espero por você, poderia parar e pensar, lutar pelos meus princípios, nadar contra a correnteza, mas assim você não poderá estar comigo, quero agarrar este galho e segurá-la, não quero que a correnteza nos separe, poderia ter o prazer de me autorealizar, mas ainda estaria incompleto, vendo-a só, ficaria triste, deixe, irei protege-la.
Sozinhos, ainda sentirei solidão com você, em você, mas não podemos fazer quase nada, faremos o possível, só não me deixe, não deixe a multidão lhe levar para longe, fique e seremos apenas nos, a dor não cessará, mas estaremos acolhidos na ternura mútua, espero...
O preto e o branco, não existe o cinza, a não ser que fale da força da cor, tudo assim não nos dá liberdade, num momento penso em deixar tudo, e deixar tirarem tudo de mim, até você, assim talvez seja mais livre, sem ter que escolher, sem ter que negar, sendo tudo que posso ser, fugindo deste mundo louco, onde serei considerado apenas mais um louco entre o sãos.
Passam as horas, talvez você também passe, agora estou sem rumo, mas sei que você poderá me ajudar, não quero caminhar por fábricas, nem em campos, quero seguir em frente toda manhã, só ainda não sei para qual lado virar, venha me ajude, ame ou deixe-me, assim poderei seguir, mas não triste, irei me enganar, fingir ter escolhido o meu destino, assim sempre estarei bem, e quando achar que errei julgarei todo o resto como culpado, que eu não poderia fazer nada, viver é muito fácil, é só fingir que a sua vida é boa.
Na manhã seguinte, talvez ainda estarás sonhando com um celular novo, com outra roupa em outro lugar, não faço parte do seu sonho, mas você pode escolher a realidade, pular de uma ponte, ou gozar outra vez com uma pessoa descartável, de toda forma não vivera sentindo a dor, o sol sempre se põe, você não pode ir contra a ordem natural da coisas, qualquer coisa pode ser quaisquer coisa, já estou falando coisas sem sentido, nada tem sentido, você, eu, o mundo, tudo.
Agora ainda falo, é confortavel sentir que se esta parado, mas na realidade estou descendo a fossa, estou indo agora no sentido da correnteza, para chegar ao grande nada, só estou seguindo porque assim continuo perto de você, venha antes que não existamos mais, vamos existir para sempre, a dor iremos nos acostumar, cada dia será como tudo, uma coisa grande, sem sentido algum, sem ordem e inútil, vamos viver, quero você para isso, você não passa de uma instrumento para mim, seria uma extensão de mim, do meu ser, ou poderá ir, eu seria feliz, iria me idiotizar, como sempre fiz, e talvez continuasse com você assim, seria feliz, como sou feliz, cada dia um objetivo diferente, um objeto diferente me aliena, inútil, com o objetivo apenas de gerar outro objetivo e outro, você é o meu atual objetivo, não sei em que sentido, mas talvez exista outro objetivo atrás deste...
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Carta - O último crepúsculo
Agora sei, amanhã o sol não nascerá, pensei poder continuar bem sem você, mas agora sei que as trevas estão devastando tudo que resta de humano no meu coração, e você não pode me salvar, nada, ninguém, não há como mudar o passado, escolhas causaram isto.
Seguirei em frente, como quem anda ainda apenas por andar, não irei muito longe, sem rumo viverei, sozinho outra vez, agora para sempre. O sua pele branca não apreciarei, seu olhar curioso não me despertará fascínio, sua voz não me comoverá, não é mais uma escolha possível, ama-lá, talvez ainda ame, mas escolhi que não, não lhe odeio, só não lhe quero desejar novamente, a ambição de viver fez eu renegá-la, agora não vivo, tudo que fiz para bem próprio se tornou inútil, não me satisfaço com à vida.
Sempre que precisar estarei ao seu lado, a sua doçura ainda me retém, um laço que não consegui quebrar, agora peço para que não me deixe, não consigo suportar o triste orvalho das árvores sozinho, não quero ver você sofrer novamente, quero ser um servo leal, que ama o seu senhor lhe devendo gratidão imensurável, seu sorriso não pode ser destruído, vejo nos seus sonhos os meus, os que não tenho mais, a minha vida é um desengano, a sua ainda parece resistir a realidade, quero partilhar desta fantasia, ver a felicidade em você me alegrará novamente, somente isto, espero.
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Poesia - Estações que não se renovam
pela solidão, pela frieza,
agora moderno, olhando o vida,
já sem compaixão, preciso da partida,
menos terno, fico sozinho,
parece verão, ainda quero carinho.
A carência que não se desfaz,
à fuga de si mesmo,
ser alegre não sou capaz,
um dia a morte,
a supressão da dor num zás,
poderia pelo destino,
até andar para trás,
não ia ser feliz,
novamente, não mais.
Agora a felicidade,
a deixei para ser mais lúcido,
buscando prazer pela sua saudade,
querendo você de verdade,
numa mudança brusca,
algo que não existe,
agora no meio da chuva,
se você me punisse,
antes que do abismo caísse,
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Carta - Delirium
Nem sempre antes de morrer uma flor consegue desabrochar, ceifam flores todos os dias, e normalmente não ficam sementes, poderias esperar não sermos ceifados, nós inclinando para perto da lâmina afiada ou deitando no chão de forma a esconder o brilho das pétalas, mas não gostaria de experimentar uma sensação amadeirada, gosto da tenacidade e fugacidade ao mesmo tempo, e assim paradoxalmente, vivo, ou como prefiro e sempre digo a minha mãe, sobrevivo, porque a vida é apenas um conjunto de intempéries, que procuram, acima de tudo, nos degradar, mesmo ao resistir somos degradados, até a lembrança de ti, antes submissa á ideias preconceituosas que subjugam a fora apreensão da tua existência, a distorcendo, ainda é degradada, sim, a sua existência em mim, antes sujeita a julgamentos tendenciosos que buscam interpretar de forma já existente através do julgamento preliminar anterior, sim, essa sua existência será degradada pelo tempo, pela inconsistência da minha mente, e mais posteriormente, por novos outros julgamentos, sempre que acessar na minha memória você, então, preciso de você novamente, para evitar tua obnubilação através de mim, não quero que a sua existência, antes distorcida, passe a ser túrbida e incerta, fruto da mente de um humano, do delirium de uma vida inconstante.
Me encontre, antes que deixemos de existir, antes que deixemos de ser, antes que a essência destrua a experiência, e tudo passe a ser um conjunto incerto de premissas inúteis e irregulares.
Antes a tenacidade, agora experimentar a fugacidade de aos poucos deixar de existir, antes que o crepúsculo se torne a escuridão infinita e eterna, deixe-me sentir novamente, agora não são apenas os desejos que impulsionaram à conhece-la, agora há a vontade, e essa vontade me levaram, me levam e me levarão a abstrair sua existência acumulada em mim, tornando uma distócia, você... E a após essa lastimável degradação, virá a morte, a aprosexia.
Desculpa essa imperatividade da inconstância, assim como os meus erros de português (inclui palavras usadas indevidamente), escrevo o que penso agora, como já disse, e penso isto por sentir, a vida me vem neste momento com a sua face mais assustadora, de forma a me fazer amá-la e rejeitá-la, com um tremenda variabilidade entre estes extremos, sem ter o que pensar, sem ter como fugir do ser ou não ser, do viver ou não viver, e tudo isto que sinto agora se traduz nesta mensagem angustiante, de alguém que ainda está a viver, sem saber até quando e quanto, ou, por quanto ou quando...
terça-feira, 27 de outubro de 2009
Texto - Liberdade para não viver
Todos são loucos? Não, loucos é uma definição, loucos são os diferentes, louco são os outros, antes de tudo, sou um ser perfeito, todos pensam assim, eles nascem de Deus e irão encontra-lo, fazendo parte do Olimpo. Somos maiores do que pensamos/vemos? Não, queremos não rejeitar a possibilidade de sermos meros e inúteis humanos.
A realidade existe, mas escondida, atrás do sol de Apolo e do vinho de Dionísio, rejeitar a racionalidade humana, o prazer e o(s) Deus(es) é difícil, e quem conseguirá vencer uma sociedade positivista que foge da realidade a todo o custo, o patológico é justificado por conceitos, não são os conceitos que definem o patológico, é o que não é aceito, assim como na inútil ética, nada existe além de palavras que mascaram a forma opressiva de existir da sociedade, fugindo da realidade e negando a quaisquer que queira a realidade, além de aceitar apenas o que modela-se ao que têm como realidade.
Somos Sísifos felizes como falou Camus, até nos tornamos em algo diferente, algo que precisa ser tratado, o diferente não pode existir, porque a sociedade corre risco, a consciência pode destruir vidas alegres, então que se esconda toda a sociedade atrás de conceitos inúteis, uma conjunto de signos sem significados, senão mais signos, uma forma de tentar proteger a todos, a humanidade deve existir, tudo que coloca a existência em risco deve ser eliminado, nem é sadismo que controla a existência da sociedade, Dionísio não foi tão longe, é a razão inconsciente, o que existe diferente nega a existência deles, não podem ter contato com a realidade, então mecanismos de defesa coletivos inconscientes foram criados, não poderá a sociedade correr o risco do seu fim, "se Deus não existisse seria necessário inventá-lo", disse Voltaire, parece que todos já sabiam disto...
O sofrimento sempre existe, podem fugir, se enganarem, como a ajuda de Apolo ou Dionísio, mas antes de nascer já existe sofrimento, antes de existir o sol (na concepção mais fiel da palavra existir, infantil, só existe o que está no nosso campo de visão), já havia o Caos, que ainda existe, tudo tende ao Caos, a degradação da matéria é constante, o movimento Browniano não deixa o tempo parar, viver se revela algo caótico, claro em meio ao Caos, mas não uma coisa especial, como seria possível, eu renego a ilusão coletiva, ao suicídio coletivo da razão em prol de mais razão...
Vivo, não nego sou hedonista, mas fujo do prazer, temo ficar embriagado e perder minha noção de real, temo ainda a proliferação do sofrimento, não irei agora, não gosto da ideia de fazer sofrer os bobos da corte, eles deixaram eu ter contato com a minha realidade, seria demais para todos expirar agora, também temo a tomada de consciência por parte deles, sou a favor da liberdade, quaisquer que quiser ser mais um Sísifo alegre poderá ser, assim como quero que possam não aceitar a alegria aqueles que o quiserem, cada um poderia escolher, e não aceitar a vida como dizem que ela é, não se conformar com a escravidão, e também, não aumentar a escravidão, gerando novos escravos, a liberdade deveria ser um prioridade, mas a sociedade precisa ser protegida.
Talvez ainda exista um último pôr-do-sol e se acabe o vinho, o fim da dubialidade da realidade, do que pensam ser a realidade.
Conto - Na escuridão
Senti a presença de alguém, uma mulher, imaginei ser minha namorada, ela tem uma chave da minha casa, eu estava sentado na escada, admirando a chuva pelas janelas, senti frio, estava mesmo querendo possuir minha namorada naquele chão frio, então ela não aparece, acreditei que ela ia logo subir, então me encontrar.
Andei sozinho na escuridão à procura de algum vulto, vi passar no corredor rápido, e subir a escada após, subi. No meu quarto, ao entrar, vi, um monstro que não lembro muito bem, parecia me esperar, voltei sem deixar ser percebido, peguei meu revólver, atirei sem hesitar, o cheiro de sangue inundava o quarto, ouvi então murmúrios baixos, puxei ainda receoso o lençol, minha namorada, nua, agora morta, aquela pele branca suja de sangue, o cheiro do sangue, tudo não me deixava pensar, só conseguia ver aquilo, senti aquilo, aquela angústia que clamava pelo fim, dela e o meu.
Me deitei na cama, ela já havia morrido ou ficado inconsciente, a abracei, então ouvi sua voz novamente, não acreditei ela estava viva, procurei pelo ferimento que havia visto, era próximo a clavícula, na esquerda, a pele estava integra, e ela viva, não aguentava pensar novamente, agora só queria sentir o meu amor nos meus braços, ela estava incrivelmente cheirosa, linda como sempre, transamos até exaustos dormimos, juntos como adoramos ficar.
Acordei tarde no outro dia, então decidi acorda-la com beijos, parecia ser tarde, e ela tinha que ir à faculdade, quando a olhei vi uma mosca sobre sua pele, senti o seu gélido sangue em toda a cama, por todo o meu corpo, a puxei, vi os olhos dela, estava morta, já havia até esquecido os apuros que havia passado, agora lembrava, sim, havia a matado.
A empurrei da cama antes de levantar, ela não me atrai mais, pelo contrário, agora repudiava, aquele corpo sujo, de sangue e de esperma, olhei a minha arma, ainda no criado-mudo, não queria me matar, temia não ser verdade aquilo, não seria apenas uma ilusão ou um pesadelo? Fui ao chão, queria sentir novamente a morte dela, a vi, a toquei e agora tinha certeza, não era um mero sonho, lembrava de tudo com detalhes, dos meus pensamentos aos grunhidos dela, penetrei ela ainda viva, agonizante, tive ódio de mim mesmo, eu a amava, nunca havia amado ninguém daquela forma, e agora o que tinha feito? Decidi resolver tudo, coloquei o revólver na boca, atirei.
Então após alguns sonhos estranhos, vozes e a sensação de pessoas ao meu redor, abro os olhos, me vejo num leito, estava cheio de aparelhos, minha boca era um grande oco, e respirava por uma traqueostomia, não acreditava, estava vivo. Um enfermeiro entra, finjo estar dormindo, ele mexe nos tubos, e sai logo, sem ter percebido nada.
Então abro os olhos, tento me mover, não consigo, então descobri, estava tetraplégico, não queria viver, estava preso a tubos, queria tira-los e pular daquele quarto, então entra minha mãe, e chora, tento falar, não consigo, não aguento, e lágrimas molham meu rosto, depois de um tempo ela diz que havia pensado desligar os aparelhos, acreditam que eu não voltaria, mas ela decidiu esperar, que tinha certeza que Deus ia fazer o filho dela acordar, e depois de nove meses dormindo naquele hospital o filho dela estava finalmente de volta. Ela me diz depois que nunca iria andar de novo, falar, comer normalmente e respirar pelo nariz, resíduos da bala deixados negligentemente pelos médicos durante uma cirurgia fizeram ser necessária a retirada da minha laringe, completamente.
Chorei mais, ela ainda me mostra o cartão entregue no enterro, agora não falando mais, como por não receber respostas, chorava e mostrava o que havia guardado para quando eu acordasse, na foto eu estava com ela, minha foto favorita, dela também, e no epitáfio, dizia: "viveu feliz, como uma criança que sempre foi", no cartão estava a cor favorita dela, fechei os olhos, então escutei minha mãe dizer: "Sabia que a droga ia acabar com você, mas agora você será o meu bebezinho, irei leva-lo para casa, contratar uma enfermeira bonita para cuidar do meu menino."
Fechei os olhos, imaginei estar no inferno, e que deveria sofrer, não sabia mais o que odiar, não tinha controle de nada, era agora como um móvel velho e inútil na sala da minha mãe, e como ela dizia a todos: "Deus trouxe meu filhinho de volta, sabia que um dia ele ia me dar este presente."