sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Carta - O último crepúsculo

O sol agora é apenas mais uma estrela, ao resplandecer do crepúsculo sozinho novamente estarei, escolhas feitas por mim nos distanciaram, não podemos deixar o medo nos mover, tive medo, evitei a alegria, evitei você, foi por medo, fui fraco, não sei se ainda sou, poderia ser feliz, poderia ser feliz novamente, mas a dor já transpassou minha carne, não há como você, não.
Agora sei, amanhã o sol não nascerá, pensei poder continuar bem sem você, mas agora sei que as trevas estão devastando tudo que resta de humano no meu coração, e você não pode me salvar, nada, ninguém, não há como mudar o passado, escolhas causaram isto.
Seguirei em frente, como quem anda ainda apenas por andar, não irei muito longe, sem rumo viverei, sozinho outra vez, agora para sempre. O sua pele branca não apreciarei, seu olhar curioso não me despertará fascínio, sua voz não me comoverá, não é mais uma escolha possível, ama-lá, talvez ainda ame, mas escolhi que não, não lhe odeio, só não lhe quero desejar novamente, a ambição de viver fez eu renegá-la, agora não vivo, tudo que fiz para bem próprio se tornou inútil, não me satisfaço com à vida.
Sempre que precisar estarei ao seu lado, a sua doçura ainda me retém, um laço que não consegui quebrar, agora peço para que não me deixe, não consigo suportar o triste orvalho das árvores sozinho, não quero ver você sofrer novamente, quero ser um servo leal, que ama o seu senhor lhe devendo gratidão imensurável, seu sorriso não pode ser destruído, vejo nos seus sonhos os meus, os que não tenho mais, a minha vida é um desengano, a sua ainda parece resistir a realidade, quero partilhar desta fantasia, ver a felicidade em você me alegrará novamente, somente isto, espero.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Poesia - Estações que não se renovam

Antes, no inverno, a tristeza,
pela solidão, pela frieza,
agora moderno, olhando o vida,
já sem compaixão, preciso da partida,
menos terno, fico sozinho,
parece verão, ainda quero carinho.

A carência que não se desfaz,
à fuga de si mesmo,
ser alegre não sou capaz,
um dia a morte,
a supressão da dor num zás,
poderia pelo destino,
até andar para trás,
não ia ser feliz,
novamente, não mais.

Agora a felicidade,
a deixei para ser mais lúcido,
buscando prazer pela sua saudade,
querendo você de verdade,
numa mudança brusca,
algo que não existe,
agora no meio da chuva,
se você me punisse,
antes que do abismo caísse,
pularia para ser feliz no final.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Carta - Delirium

Nem sempre antes de morrer uma flor consegue desabrochar, ceifam flores todos os dias, e normalmente não ficam sementes, poderias esperar não sermos ceifados, nós inclinando para perto da lâmina afiada ou deitando no chão de forma a esconder o brilho das pétalas, mas não gostaria de experimentar uma sensação amadeirada, gosto da tenacidade e fugacidade ao mesmo tempo, e assim paradoxalmente, vivo, ou como prefiro e sempre digo a minha mãe, sobrevivo, porque a vida é apenas um conjunto de intempéries, que procuram, acima de tudo, nos degradar, mesmo ao resistir somos degradados, até a lembrança de ti, antes submissa á ideias preconceituosas que subjugam a fora apreensão da tua existência, a distorcendo, ainda é degradada, sim, a sua existência em mim, antes sujeita a julgamentos tendenciosos que buscam interpretar de forma já existente através do julgamento preliminar anterior, sim, essa sua existência será degradada pelo tempo, pela inconsistência da minha mente, e mais posteriormente, por novos outros julgamentos, sempre que acessar na minha memória você, então, preciso de você novamente, para evitar tua obnubilação através de mim, não quero que a sua existência, antes distorcida, passe a ser túrbida e incerta, fruto da mente de um humano, do delirium de uma vida inconstante.

Me encontre, antes que deixemos de existir, antes que deixemos de ser, antes que a essência destrua a experiência, e tudo passe a ser um conjunto incerto de premissas inúteis e irregulares.

Antes a tenacidade, agora experimentar a fugacidade de aos poucos deixar de existir, antes que o crepúsculo se torne a escuridão infinita e eterna, deixe-me sentir novamente, agora não são apenas os desejos que impulsionaram à conhece-la, agora há a vontade, e essa vontade me levaram, me levam e me levarão a abstrair sua existência acumulada em mim, tornando uma distócia, você... E a após essa lastimável degradação, virá a morte, a aprosexia.


Desculpa essa imperatividade da inconstância, assim como os meus erros de português (inclui palavras usadas indevidamente), escrevo o que penso agora, como já disse, e penso isto por sentir, a vida me vem neste momento com a sua face mais assustadora, de forma a me fazer amá-la e rejeitá-la, com um tremenda variabilidade entre estes extremos, sem ter o que pensar, sem ter como fugir do ser ou não ser, do viver ou não viver, e tudo isto que sinto agora se traduz nesta mensagem angustiante, de alguém que ainda está a viver, sem saber até quando e quanto, ou, por quanto ou quando...

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Texto - Liberdade para não viver

Antes do pôr-do-sol irei acreditar em Deus, antes irei negar minha existência, sacrificar minha existência, me tornar feliz, ser mais um Sísifo alegre, como um bobo da corte, rindo da própria desgraça, rindo da vida, como se apaixonando pelos meus sequestradores, num acesso de insanidade que traria a normalidade de volta.
Todos são loucos? Não, loucos é uma definição, loucos são os diferentes, louco são os outros, antes de tudo, sou um ser perfeito, todos pensam assim, eles nascem de Deus e irão encontra-lo, fazendo parte do Olimpo. Somos maiores do que pensamos/vemos? Não, queremos não rejeitar a possibilidade de sermos meros e inúteis humanos.
A realidade existe, mas escondida, atrás do sol de Apolo e do vinho de Dionísio, rejeitar a racionalidade humana, o prazer e o(s) Deus(es) é difícil, e quem conseguirá vencer uma sociedade positivista que foge da realidade a todo o custo, o patológico é justificado por conceitos, não são os conceitos que definem o patológico, é o que não é aceito, assim como na inútil ética, nada existe além de palavras que mascaram a forma opressiva de existir da sociedade, fugindo da realidade e negando a quaisquer que queira a realidade, além de aceitar apenas o que modela-se ao que têm como realidade.
Somos Sísifos felizes como falou Camus, até nos tornamos em algo diferente, algo que precisa ser tratado, o diferente não pode existir, porque a sociedade corre risco, a consciência pode destruir vidas alegres, então que se esconda toda a sociedade atrás de conceitos inúteis, uma conjunto de signos sem significados, senão mais signos, uma forma de tentar proteger a todos, a humanidade deve existir, tudo que coloca a existência em risco deve ser eliminado, nem é sadismo que controla a existência da sociedade, Dionísio não foi tão longe, é a razão inconsciente, o que existe diferente nega a existência deles, não podem ter contato com a realidade, então mecanismos de defesa coletivos inconscientes foram criados, não poderá a sociedade correr o risco do seu fim, "se Deus não existisse seria necessário inventá-lo", disse Voltaire, parece que todos já sabiam disto...
O sofrimento sempre existe, podem fugir, se enganarem, como a ajuda de Apolo ou Dionísio, mas antes de nascer já existe sofrimento, antes de existir o sol (na concepção mais fiel da palavra existir, infantil, só existe o que está no nosso campo de visão), já havia o Caos, que ainda existe, tudo tende ao Caos, a degradação da matéria é constante, o movimento Browniano não deixa o tempo parar, viver se revela algo caótico, claro em meio ao Caos, mas não uma coisa especial, como seria possível, eu renego a ilusão coletiva, ao suicídio coletivo da razão em prol de mais razão...
Vivo, não nego sou hedonista, mas fujo do prazer, temo ficar embriagado e perder minha noção de real, temo ainda a proliferação do sofrimento, não irei agora, não gosto da ideia de fazer sofrer os bobos da corte, eles deixaram eu ter contato com a minha realidade, seria demais para todos expirar agora, também temo a tomada de consciência por parte deles, sou a favor da liberdade, quaisquer que quiser ser mais um Sísifo alegre poderá ser, assim como quero que possam não aceitar a alegria aqueles que o quiserem, cada um poderia escolher, e não aceitar a vida como dizem que ela é, não se conformar com a escravidão, e também, não aumentar a escravidão, gerando novos escravos, a liberdade deveria ser um prioridade, mas a sociedade precisa ser protegida.
Talvez ainda exista um último pôr-do-sol e se acabe o vinho, o fim da dubialidade da realidade, do que pensam ser a realidade.

Conto - Na escuridão

Era março, ainda chovia, estava sozinho, como sempre, senti o desejo de fumar algo em meio a tempestade, era noite e ainda não havia chegado meia-noite, tudo fica escuro, parecia ter sido o poder da minha mente, mas como nunca acreditei nisso...
Senti a presença de alguém, uma mulher, imaginei ser minha namorada, ela tem uma chave da minha casa, eu estava sentado na escada, admirando a chuva pelas janelas, senti frio, estava mesmo querendo possuir minha namorada naquele chão frio, então ela não aparece, acreditei que ela ia logo subir, então me encontrar.
Andei sozinho na escuridão à procura de algum vulto, vi passar no corredor rápido, e subir a escada após, subi. No meu quarto, ao entrar, vi, um monstro que não lembro muito bem, parecia me esperar, voltei sem deixar ser percebido, peguei meu revólver, atirei sem hesitar, o cheiro de sangue inundava o quarto, ouvi então murmúrios baixos, puxei ainda receoso o lençol, minha namorada, nua, agora morta, aquela pele branca suja de sangue, o cheiro do sangue, tudo não me deixava pensar, só conseguia ver aquilo, senti aquilo, aquela angústia que clamava pelo fim, dela e o meu.
Me deitei na cama, ela já havia morrido ou ficado inconsciente, a abracei, então ouvi sua voz novamente, não acreditei ela estava viva, procurei pelo ferimento que havia visto, era próximo a clavícula, na esquerda, a pele estava integra, e ela viva, não aguentava pensar novamente, agora só queria sentir o meu amor nos meus braços, ela estava incrivelmente cheirosa, linda como sempre, transamos até exaustos dormimos, juntos como adoramos ficar.
Acordei tarde no outro dia, então decidi acorda-la com beijos, parecia ser tarde, e ela tinha que ir à faculdade, quando a olhei vi uma mosca sobre sua pele, senti o seu gélido sangue em toda a cama, por todo o meu corpo, a puxei, vi os olhos dela, estava morta, já havia até esquecido os apuros que havia passado, agora lembrava, sim, havia a matado.
A empurrei da cama antes de levantar, ela não me atrai mais, pelo contrário, agora repudiava, aquele corpo sujo, de sangue e de esperma, olhei a minha arma, ainda no criado-mudo, não queria me matar, temia não ser verdade aquilo, não seria apenas uma ilusão ou um pesadelo? Fui ao chão, queria sentir novamente a morte dela, a vi, a toquei e agora tinha certeza, não era um mero sonho, lembrava de tudo com detalhes, dos meus pensamentos aos grunhidos dela, penetrei ela ainda viva, agonizante, tive ódio de mim mesmo, eu a amava, nunca havia amado ninguém daquela forma, e agora o que tinha feito? Decidi resolver tudo, coloquei o revólver na boca, atirei.
Então após alguns sonhos estranhos, vozes e a sensação de pessoas ao meu redor, abro os olhos, me vejo num leito, estava cheio de aparelhos, minha boca era um grande oco, e respirava por uma traqueostomia, não acreditava, estava vivo. Um enfermeiro entra, finjo estar dormindo, ele mexe nos tubos, e sai logo, sem ter percebido nada.
Então abro os olhos, tento me mover, não consigo, então descobri, estava tetraplégico, não queria viver, estava preso a tubos, queria tira-los e pular daquele quarto, então entra minha mãe, e chora, tento falar, não consigo, não aguento, e lágrimas molham meu rosto, depois de um tempo ela diz que havia pensado desligar os aparelhos, acreditam que eu não voltaria, mas ela decidiu esperar, que tinha certeza que Deus ia fazer o filho dela acordar, e depois de nove meses dormindo naquele hospital o filho dela estava finalmente de volta. Ela me diz depois que nunca iria andar de novo, falar, comer normalmente e respirar pelo nariz, resíduos da bala deixados negligentemente pelos médicos durante uma cirurgia fizeram ser necessária a retirada da minha laringe, completamente.
Chorei mais, ela ainda me mostra o cartão entregue no enterro, agora não falando mais, como por não receber respostas, chorava e mostrava o que havia guardado para quando eu acordasse, na foto eu estava com ela, minha foto favorita, dela também, e no epitáfio, dizia: "viveu feliz, como uma criança que sempre foi", no cartão estava a cor favorita dela, fechei os olhos, então escutei minha mãe dizer: "Sabia que a droga ia acabar com você, mas agora você será o meu bebezinho, irei leva-lo para casa, contratar uma enfermeira bonita para cuidar do meu menino."
Fechei os olhos, imaginei estar no inferno, e que deveria sofrer, não sabia mais o que odiar, não tinha controle de nada, era agora como um móvel velho e inútil na sala da minha mãe, e como ela dizia a todos: "Deus trouxe meu filhinho de volta, sabia que um dia ele ia me dar este presente."